A esclerose múltipla é uma condição neurológica que se apresenta de forma complexa e impacta a vida de milhões de pessoas em todo o mundo. Identificada como a condição neurológica mais comum entre adultos jovens, a esclerose múltipla afeta cerca de 2,9 milhões de indivíduos globalmente, com aproximadamente 40 mil no Brasil. No contexto de conscientização, o Dia Mundial da Esclerose Múltipla, celebrado em 30 de maio, enfatiza a importância do diagnóstico precoce, fundamental para garantir um tratamento eficaz.
Em 2024, a campanha intitulada “My MS Diagnosis: navigating MS together” (“Meu Diagnóstico de Esclerose Múltipla: navegando juntos pela EM”, em tradução livre) alinha-se com as diretrizes mais recentes no diagnóstico da doença. A revisão dos “Critérios de McDonald”, que desde 2017 orientam a detecção e tratamento da esclerose múltipla, reforça essa iniciativa.
As modificações nos critérios diagnósticos foram oficialmente divulgadas em 2025, em um artigo no The Lancet Neurology, e incluem novos marcadores de diagnóstico, com o intuito de aumentar a precisão dos exames e permitir o início do tratamento mais cedo. O neurologista Herval Ribeiro Soares Neto, do Hospital Israelita Einstein, destaca que o objetivo é antecipar o diagnóstico para prevenir sintomas e evitar sequelas futuras.
A esclerose múltipla é classificada como uma doença autoimune, na qual o sistema imunológico ataca a bainha de mielina, que reveste os neurônios e é vital para a transmissão dos impulsos nervosos. Essa agressão desencadeia inflamações e a formação de lesões em áreas como o nervo óptico, a medula espinhal e o cerebelo, resultando em uma variedade de sintomas, incluindo perda de visão, embaçamento, vertigens e desequilíbrio.
Em proporções significativas, cerca de 80% dos casos manifestam surtos que podem durar semanas, com possibilidade de melhora espontânea. Entretanto, nem sempre é possível restaurar as funções afetadas, pois a capacidade de regeneração do sistema nervoso central varia de um paciente para outro, e em casos mais severos, os sintomas apresentam-se de maneira progressiva.
O diagnóstico de esclerose múltipla é multifacetado, considerando não somente o exame clínico e o histórico do paciente, mas também a realização de exames de imagem, como a ressonância magnética do crânio e da coluna, além da análise do líquor. Ao longo do tempo, a doença deixa lesões características em áreas específicas do cérebro, acompanhadas pelo aumento de substâncias no líquido cefalorraquidiano, que atuam como marcadores para a condição.
A avaliação diagnóstica abrange a contagem de lesões e a localização das mesmas, assim como a presença de marcadores específicos, como as bandas oligoclonais, e as características das lesões, como veias centrais ou depósitos de ferro. A tecnologia tem desempenhado um papel crucial nesse processo, por meio de equipamentos avançados que permitem a visualização detalhada das lesões.
No Einstein, por exemplo, foi desenvolvido um laudo estruturado de ressonância magnética voltado para a esclerose múltipla, que analisa critérios de forma sistemática. Esse recurso, juntamente com a análise mais precisa dos biomarcadores através do líquor, retirado via punção lombar, tem proporcionado uma qualidade diagnóstica superior, enfatiza Soares Neto.
Uma das inovações da recente revisão dos critérios diagnósticos é o reconhecimento do nervo óptico como uma nova região típica para lesões no sistema nervoso central, somando-se às quatro regiões já reconhecidas: periventricular, juxtacortical/cortical, infratentorial e medula espinhal.
Outra mudança significativa é a possibilidade de diagnosticar pacientes que apresentam lesões detectadas em exames de imagem e que atendem aos critérios para esclerose múltipla, mesmo na ausência de sintomas. Anteriormente, esses pacientes eram considerados apenas portadores da síndrome radiológica isolada. Essa alteração é importante, pois permite iniciar o tratamento antes da manifestação clínica da doença, melhorando as perspectivas de prognóstico, segundo a neurologista Ana Cláudia Piccolo, coordenadora do departamento científico de Neuroimunologia da Academia Brasileira de Neurologia (ABN).
Apesar do avanço nos critérios diagnósticos, a realidade é que mais de 80% dos países ainda enfrentam barreiras para o diagnóstico precoce da esclerose múltipla, conforme a 3ª Edição do Atlas da Esclerose Múltipla publicada em 2021. Essas dificuldades estão relacionadas tanto à falta de conscientização sobre os sintomas quanto à escassez de profissionais especializados e equipamentos adequados.
Imensas são as histórias de pessoas que, diante de sintomas indefinidos como fadiga excessiva, problemas de equilíbrio ou visão embaçada, percorrem uma jornada por diversos especialistas antes de receber o diagnóstico correto de esclerose múltipla. Muitas vezes, o primeiro auxílio é procurado em clínicas de ortopedia, otorrinolaringologia ou oftalmologia, e até mesmo nesses casos, o diagnóstico pode ocorrer durante investigações relacionados a outras condições, como enxaquecas ou traumas cranianos, conforme relata Piccolo.
Tratamento Personalizado para Esclerose Múltipla
O tratamento da esclerose múltipla deve ser adaptado a cada paciente, levando em consideração a evolução da doença, o número de lesões, a rotina pessoal e a presença de outras condições de saúde. Nos últimos anos, houve avanços significativos, com a introdução de medicamentos mais específicos e com menos efeitos colaterais, proporcionando maior eficácia no controle da condição.
De acordo com o neurologista Herval Soares Neto, a evolução do tratamento possibilita que mais de 90% dos pacientes evitem novas lesões inflamatórias, com atualmente mais de dez opções de medicamentos disponíveis. Esses medicamentos são voltados tanto para a fase aguda quanto para a prevenção das crises, e incluem imunomoduladores e imunossupressores, que podem ser administrados por via endovenosa ou via oral.
Recentemente, em abril, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou um novo medicamento intitulado ublituximabe, que será disponibilizado no mercado como Briumvi. Este anticorpo monoclonal atua impedindo que os linfócitos ataquem a bainha de mielina, reduzindo assim as crises. Esta nova classe de tratamento é uma opção adicional para os pacientes, conforme destaca Soares Neto.
Embora os avanços sejam significativos, é fundamental que cada caso de esclerose múltipla seja criteriosamente avaliado. “Não existe um protocolo único; o tratamento é individualizado”, afirma o neurologista. “Com as opções de tratamento de alta eficácia, é possível controlar a doença e levar uma vida normal por décadas.”
Esclerose múltipla: novo remédio no SUS oferece maior qualidade de vida
