Os impactos de crises geopolíticas e fenômenos climáticos, como o El Niño, irão influenciar os preços dos alimentos no Brasil em 2026. Marcio Milan, vice-presidente da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), destacou em recente análise que o conflito entre os Estados Unidos e o Irã pode ter consequências significativas sobre toda a cadeia de abastecimento. Essas tensões, aliadas ao aquecimento global, projetam um cenário de alta nos preços dos itens básicos.
Desde o início das hostilidades em fevereiro, as cotações do petróleo como Brent e WTI já subiram consideravelmente. Neste contexto, o aumento do barril de petróleo a preços históricos, como os US$ 120 nas primeiras semanas do conflito, afeta diretamente os custos de transporte e, consequentemente, dos alimentos consumidos nas prateleiras dos supermercados.
Com a recente intensificação de ataques e novas sanções, a volatilidade dos preços do petróleo segue. Recentemente, os contratos futuros se aproximaram de US$ 80 o barril, evidenciando a indefinição sobre a continuidade das operações no Estreito de Ormuz, um ponto estratégico crucial para as exportações globais de petróleo.
Influência do El Niño na Preço dos Alimentos
Outro aspecto alarmante é a previsão do fenômeno climático El Niño, que promete afetar a produção agrícola no final do ano. Segundo especialistas, sua intensidade poderia alcançar 63%, colocando-o entre os mais severos desde 1950. Marcio Milan adverte que este fenômeno pode agravar ainda mais a situação dos preços dos alimentos. Produtos como batata, tomate e cebola, que já enfrentam aumento, podem ter seus custos elevados significativamente na próxima temporada.
Os dados do Abrasmercado mostram que a cesta de consumo, que inclui 35 produtos básicos, já registrou um aumento considerável. Em maio, a variação foi de 2,16%, elevando o preço médio da cesta para R$ 854,91, um incremento de 6,82% se comparado ao mesmo período do ano anterior. Entre os campeões de alta estão o feijão, com 6,44% em maio, seguido pelo arroz e o leite longa vida.
Aumento dos Custos de Alimentos e Repercussão Regional
No setor hortifrutigranjeiro, as variações de preços foram ainda mais acentuadas. Em um mês, a batata e o tomate saltaram 44,69% e 20,62%, respectivamente. No acumulado do ano, as altas são alarmantes, alcançando 75,84% e 86,17%. Essa pressão inflacionária nos alimentos é uma realidade que as famílias brasileiras começam a sentir no dia a dia.
Regionalmente, o Nordeste é a área que apresentou a maior variação com 2,79%, embora ainda possua a cesta básica mais econômica do Brasil. Por outro lado, no Norte, o custo da cesta básica alcançou R$ 939,79, refletindo um aumento significativo de 1,88%. Essa discrepância ressalta a desigualdade no acesso aos alimentos entre diferentes regiões do país.
Impactos Sociais e Econômicos
Apesar da inflação crescente nos alimentos, o consumo das famílias, paradoxalmente, parece estar em ascensão. Comparado ao mesmo período do ano anterior, uma alta de 3,93% foi registrada em maio de 2026. Além disso, essa tendência de crescimento no consumo não é aleatória; reflete fatores como a estabilidade do mercado de trabalho e um aumento no poder aquisitivo das famílias.
Recebimentos como a restituição do Imposto de Renda e o antecipado 13º salário desempenharam papel crítico no aumento da renda mensal, permitindo que mais brasileiros realizassem compras. O vice-presidente da Abras, Milan, salienta a importância dessa previsibilidade de renda, que contribui para a manutenção do abastecimento familiar, especialmente em um cenário marcado por juros elevados.
Aproveitando a sazonalidade, o Dia das Mães em maio de 2026 levou a um aumento de aproximadamente 9,5% no consumo em comparação ao mesmo período do ano anterior. Esse dado é um indicativo claro de que, mesmo com a inflação nos alimentos, as famílias estão ajustando seus orçamentos para aproveitar datas festivas.
O cenário que se desenha para o segundo semestre de 2026 demanda atenção redobrada, tanto por parte dos consumidores quanto da indústria. O nexo entre as crises internacionais e os fenômenos climáticos propõe um desafio contínuo ao abastecimento de alimentos e à estabilidade econômica, sendo preponderante a vigilância acerca de futuros aumentos de preços e ajustes no mercado.



