Tubarões criados por “babás” são reintroduzidos na natureza com sucesso

Bem próximo à Ilha Kri, em Raja Ampat, na Indonésia, tubarões pontilhados de um metro de comprimento deslizam sob a água — uma visão que conservacionistas dizem ter sido extremamente rara até pouco tempo atrás. Essa situação destaca a importância das iniciativas de conservação que buscam revitalizar a população de tubarões em habitats ameaçados.

O tubarão-leopardo do Indo-Pacífico, também conhecido como tubarão-zebra, historicamente habitou os recifes ao longo do Oceano Indo-Pacífico Ocidental, abrangendo o Mar Vermelho, a África Oriental, o Japão e a Austrália. No entanto, sua população enfrentou um declínio alarmante nos últimos anos, com uma redução estimada em 50-79% ao longo das últimas três gerações.

Essa drástica diminuição é atribuída à destruição de habitat e à sobrepesca, e a espécie está classificada como em perigo pela IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). O comércio de barbatanas de tubarão foi um dos principais fatores que agravaram a situação, juntamente com a captura acidental e o comércio do seu couro exótico.

Uma “babá de tubarões” cuida deste tubarão-leopardo libertado, chamado Seren. • Foto de Mark Erdmann

Em Raja Ampat, a situação era tão crítica que, há menos de uma década, os tubarões-leopardo praticamente haviam desaparecido. O Grupo de Especialistas em Tubarões da SSC da IUCN estimou que, se deixada por conta própria, a população do arquipélago poderia levar entre 100 a 200 anos para se recuperar naturalmente, o que tornou urgente a necessidade de intervenções ativas.


O Projeto StAR: Recuperação de Tubarões

Um grupo global chamado “ReShark” está na vanguarda da conservação, tentando “restaurar o equilíbrio do oceano” através do que descrevem como o primeiro programa de rewilding de tubarões do mundo. Este esforço é conhecido como projeto Stegostoma tigrinum Augmentation and Recovery (StAR), em homenagem ao nome científico do tubarão-leopardo. A iniciativa envolve a criação de tubarões-leopardo em aquários ao redor do mundo, com os filhotes sendo posteriormente soltos em águas protegidas na Indonésia e na Tailândia.

Mark Erdmann, diretor executivo do ReShark, observa que em 2019 havia apenas cerca de 20 tubarões adultos restantes em Raja Ampat. “A maioria das atividades de conservação de tubarões normalmente se concentra em estabelecer áreas marinhas protegidas ou em gestão pesqueira. No nosso caso, nosso nicho é a recuperação ativa. “

A ideia para o projeto se originou em 2015, quando Erdmann visitou o SEA Aquarium em Singapura. Durante essa visita, a equipe expressou uma preocupação sobre a superprodução de filhotes de tubarões-leopardo, ressaltando a necessidade de um plano para sua restauração no ambiente selvagem.


Do Cativeiro à Vida Selvagem

Esse encontro disparou um empenho coletivo que se estendeu por oito anos, unindo governos, aquários, organizações sem fins lucrativos, acadêmicos, comunidades locais e cientistas de conservação. O foco era soltar filhotes criados em cativeiro em águas indonésias, onde a vida marinha necessita de revitalização. Os tubarões-leopardo do Indo-Pacífico são inofensivos para os humanos e sua capacidade de se reproduzirem através de ovos torna a espécie ideal para o rewilding.

Com cerca de 43% dos tubarões botando ovos, as características dessa espécie tornam o projeto StAR uma empreitada promissora. David Ebert, diretor do Pacific Shark Research Center, ressalta que a escolha de uma espécie que bota ovos facilita o sucesso do rewilding, diferentemente de tubarões vivíparos que apresentam desafios distintos.

Resultados Promissores

O ReShark, apoiado pela Perpetual Planet Initiative da Rolex, já estabeleceu parcerias com quase 60 aquários globalmente. Daqueles, aproximadamente uma dúzia participa ativamente da reprodução dos tubarões para o programa. Os ovos viáveis são transportados para os berçários do ReShark em Raja Ampat e Phuket, onde são monitorados por equipe especializada, conhecida como “babás de tubarão”. Quando os tubarões atingem um metro de comprimento, são marcados e soltos em águas protegidas.

Apesar de muitos especialistas permanecerem céticos quanto à eficácia de longo prazo do programa, existem sinais promissores. Em 2023, 82 filhotes foram liberados, e 15 avistamentos saudáveis foram registrados em Raja Ampat. Segundo Erdmann, a colaboração com comunidades locais e a proteção legal são essenciais para garantir a sobrevivência dos tubarões no futuro. “As pessoas em Raja Ampat e em Phuket precisam apoiar este programa,” ele enfatiza, reforçando a importância do engajamento comunitário na conservação.

Embora o futuro do tubarão-leopardo do Indo-Pacífico ainda dependa de muitos fatores, esses esforços de conservação oferecem uma nova esperança para a recuperação da espécie e a preservação dos ecossistemas marinhos.