O influenciador digital Felipe Bressanim Pereira, mais conhecido como Felca, de 27 anos, publicou um vídeo na madrugada desta terça-feira (20) revelando um diagnóstico de fobia social. O relato marcou o retorno do criador de conteúdo ao YouTube após um hiato de mais de um ano.
No depoimento, Felca detalhou os impactos do bullying físico e psicológico que sofreu durante oito anos no ambiente escolar em Londrina e explicou como esse histórico contribuiu para o desenvolvimento de quadros graves de ansiedade em interações sociais.
Entendendo a Fobia Social
A fobia social, também chamada de transtorno de ansiedade social, é uma condição psiquiátrica que se caracteriza pelo medo acentuado e excessivo de se expor a situações de interação social ou exposição pública.
Conforme definido na 10ª Classificação Internacional de Doenças (CID-10, código F40.1), o transtorno implica no medo de ser alvo da observação atenta de outras pessoas, levando o indivíduo a evitar ativamente situações interpessoais.
A conduta de recuo geralmente causa prejuízos na autoimagem, além de medo de críticas e reações físicas involuntárias de ansiedade.
A 11ª revisão da classificação da Organização Mundial da Saúde (CID-11, código 6B04) destaca que a característica central do transtorno é a preocupação persistente de agir de maneira inadequada ou manifestar sintomas visíveis de ansiedade que possam ser avaliados negativamente por terceiros.
Isso gera sentimentos de humilhação, vergonha ou rejeição. Na visão de Priscila F. Telles, médica especialista em saúde mental, experiências negativas recorrentes podem impactar a autoestima e a maneira como uma pessoa interpreta as relações sociais.
“A pessoa pode começar a antecipar novas experiências de rejeição, desenvolver medo de ser julgada e passar a evitar situações que acredita que poderão resultar em exposição ou ridicularização. Importante lembrar que cada indivíduo reage de um modo diferente, e o bullying não é um determinante para o desenvolvimento de um transtorno mental”, comenta a especialista.
Sintomas da Fobia Social
Para um diagnóstico correto, os sintomas devem persistir por meses e ser suficientemente graves a ponto de provocar sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento pessoal, familiar, social ou profissional.
Os principais sintomas associados ao transtorno incluem:
- Sintomas fisiológicos: aumento acentuado da frequência cardíaca em repouso (palpitações), rubor facial, tremores, suor excessivo e náuseas.
- Sintomas comportamentais: evitação sistemática de eventos e locais públicos, dificuldade em manter contato visual, resistência ou incapacidade de iniciar e continuar conversas e prolongado isolamento social.
- Sintomas emocionais e cognitivos: ansiedade antecipatória antes de compromissos, medo desmedido do julgamento alheio e sensação crônica de ameaça ou rejeição.
Fobia Social e Dependência de Álcool
O relato do influenciador destaca um desdobramento comum em quadros de ansiedade social não tratados: automedicação e uso de substâncias.
Conforme mencionado nos manuais da CID-11, pessoas com transtorno de ansiedade social estão em risco elevado de desenvolver problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas, especialmente álcool. As bebidas podem ser utilizadas para aliviar temporariamente a inibição e a resposta ansiosa em ambientes sociais.
Especialistas e dados clínicos alertam que, embora o uso de álcool reduza brevemente a sensação de ansiedade, o consumo regular pode mascarar o transtorno subjacente, criando tolerância e dependência, além de intensificar os episódios de ansiedade em momentos de sobriedade.
“Quando alguém percebe que só consegue enfrentar situações sociais após consumir álcool, é fundamental considerar o sofrimento que esse comportamento encerra. O alívio momentâneo pode reforçar a crença de que a pessoa não é capaz de lidar com essas situações sem a bebida”, ressalta Telles.
Tratamento e Apoio
O transtorno de ansiedade social geralmente se manifesta na infância ou adolescência, tipicamente entre 8 e 15 anos. A condição pode se desenvolver de forma gradual ou emergir após eventos traumáticos e experiências de humilhação pública.
O manejo adequado do transtorno exige acompanhamento profissional especializado. A psicoterapia é uma das formas de tratamento mais efetivas, com destaque para a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), que emprega técnicas de exposição gradual e dessensibilização para recondicionar as respostas do cérebro perante gatilhos sociais.
O acolhimento familiar e social também é fundamental. O suporte de amigos, familiares e redes de apoio é crucial para evitar o isolamento do paciente e estimular a adesão às terapias.
Para lidar com eventos que geram ansiedade, Felca compartilhou que começou a utilizar o álcool como mecanismo de enfrentamento, o que resultou em uma dependência alcoólica.
O influenciador revelou ter sofrido um acidente grave que resultou em fraturas nas costelas após consumir bebida para realizar uma gravação externa.
Após cinco meses sem sair de casa antes de filmar o vídeo, soube do desafio #SimFel, no qual se propõe, junto a seus seguidores, a aceitar convites e oportunidades sociais que normalmente recusaria por medo ou desconforto.
“Cada processo de cuidado deve respeitar a história e as necessidades do indivíduo. Evitar perpetuamente o que provoca medo pode manter o ciclo da ansiedade, mas se expor abruptamente, sem preparação ou apoio, pode ser igualmente difícil. O tratamento deve auxiliar o paciente a construir segurança gradualmente, com estratégias adequadas ao seu caso”, conclui Telles.

