O alto custo do gás natural no Brasil ainda é um entrave para agregar valor à produção mineral, segundo José Carlos Martins, da Cedro Participações. Em entrevista ao programa Mapa da Mina, ele avaliou que a política nacional para minerais críticos e estratégicos abre novas perspectivas, mas desafios estruturais limitam a capacidade do país de industrializar sua produção.
Martins destacou que o minério de ferro de alta qualidade, conhecido como “minério verde”, foi incluído na nova legislação como mineral crítico. Segundo ele, isso representa um avanço significativo. “Os minérios de maior qualidade é a melhor ferramenta que a siderurgia dispõe para reduzir suas emissões”, afirmou.
Ele ponderou, no entanto, que não nutre “muitas ilusões” de que a siderurgia deixará de emitir carbono no curto prazo, estimando que uma transformação radical nesse sentido levaria entre 50 e 70 anos.
Entraves para pelotização no Brasil
Ao ser questionado sobre a viabilidade de investimentos em pelotização, briquetagem e redução direta no Brasil, Martins reconheceu o potencial do país, mas foi enfático quanto ao principal entrave: o preço do gás. “Infelizmente, por razões do conhecimento geral, nós nunca conseguimos ter um gás no Brasil a um preço competitivo”, disse.
Ele relembrou que, durante sua passagem pela siderurgia, uma pelotizadora foi construída no Oriente Médio — e não no Brasil — porque lá o gás custava 1,50 dólar por milhão de BTU, enquanto no Brasil o preço chegava a 12 dólares. Atualmente, segundo ele, o mercado internacional pratica entre 4 e 5 dólares por milhão de BTU, enquanto o Brasil segue cobrando 12 dólares, e o Oriente Médio pode oferecer valores abaixo de 1 dólar.
Martins lembrou ainda que o Brasil já operou duas plantas de redução direta — uma na Bahia e outra no Rio Grande do Sul —, ambas posteriormente paralisadas. Para ele, “algumas metas de agregar valor não podem ser apenas uma ideia, elas têm que estar suportadas” pelas condições necessárias.
Terras raras
No campo das terras raras, Martins apontou que o principal obstáculo não é a falta de reservas — o Brasil está bem dotado nesse aspecto —, mas sim a tecnologia de processamento, dominada atualmente pela China. “Os Estados Unidos não domina, a Europa não domina, ficaram para trás nesse ponto”, afirmou.
Ele explicou que o domínio chinês não foi resultado de uma estratégia deliberada de conquista de mercado, mas de uma escolha do Ocidente, que considerava a atividade altamente poluente e a deixou para a China. Hoje, segundo Martins, 70% das terras raras do mundo são consumidas na China, e o restante do mundo precisa comprar do país asiático.
Diante desse cenário, Martins defendeu uma abordagem gradual para o Brasil. “A melhor maneira é você começar exportando e, aos poucos, ir trazendo a vantagem para o Brasil”, disse. Na sua visão, o país deve aproveitar o momento em que o mundo busca alternativas à China para firmar acordos com Estados Unidos, Europa e Japão, fornecendo terras raras em estado bruto enquanto, progressivamente, traz a industrialização para o território nacional. “Não é um ato de vontade, não é uma lei que vai mudar essa situação. O mercado vai orientar a melhor maneira de chegar nesse ponto”, concluiu.
Minerais críticos podem elevar PIB do país em R$ 243 bi até 2050
Com informações de CNN Brasil.




