FAO reconhece duas brasileiras entre 100 mulheres no agro sustentável

FAO reconhece duas brasileiras entre 100 mulheres no agro sustentável

A experiência na pesca sustentável é destaque internacional com a homenagem de duas mulheres brasileiras: Joana Rodrigues Mousinho e Luena Maria Ferreira dos Santos, conhecida como Luena Pataxó. Ambas foram reconhecidas pela FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) por suas contribuições significativas aos sistemas agroalimentares e ao desenvolvimento rural. Este reconhecimento ocorreu durante o Fórum Mundial da Alimentação, realizado em Roma, e destaca o papel crucial que as mulheres desempenham nas comunidades pesqueiras no Brasil.

Joana, com 70 anos, e Luena, de 44, representam a luta e a resistência das mulheres na pesca artesanal, contribuindo para a visibilidade e valorização de suas comunidades. Indivíduos do setor de pesca de mais de 131 países participaram do processo de seleção, que contou com mais de 600 candidaturas. Este evento também marca a proximidade do Ano Internacional da Mulher Agricultora, programado para 2026.

O Legado de Joana na Pesca Artesanal

Joana, natural de Pernambuco, começou a pescar ainda na infância, desenvolvendo sua atividade no Canal de Santa Cruz, em Itapissuma. Ao longo de mais de seis décadas, seu trabalho se expandiu para incluir a captura e comercialização de uma variedade de frutos do mar, como peixes, camarões e siris, além de advocacy por direitos trabalhistas.

Ela se destacou ao ser uma das primeiras mulheres a obter o RGP (Registro Geral da Atividade Pesqueira) e a liderar uma colônia de pescadores. Joana foi fundamental na criação da Articulação Nacional das Pescadoras, que ajudou a amplificar a voz e os direitos das mulheres na pesca artesanal. O reconhecimento de sua luta pelo desenvolvimento da pesca sustentável culminou em 2024, quando ela recebeu o Prêmio Mulheres das Águas.

A contribuição de Joana não se limita apenas à pesca; ela também tem se dedicado à proteção das comunidades pesqueiras contra a invasão de grandes empreendimentos. Para ela, a homenagem da FAO representa uma conquista coletiva, encorajando outras mulheres a lutar por seus direitos e presença nos espaços de decisão. “Foi uma conquista, minha comunidade está muito feliz e agradecida”, afirma.

Luena Pataxó e a Organização Indígena

No sul da Bahia, Luena Pataxó realiza um trabalho essencial à frente da Apip (Associação dos Pescadores Indígenas Pataxó). Este trabalho é voltado à organização dos pescadores indígenas, geração de renda e valorização cultural. Como presidente da associação e do Comitê de Relacionamento de Pescadores, Luena tem sido uma força motriz na captação de parcerias institucionais e melhorias para os trabalhadores locais.

Sob sua liderança, a associação implementou novas políticas de segurança no mar e iniciativas que impactaram diretamente a geração de renda para as famílias que dependem da pesca. Luena é também a fundadora do Grupo de Trabalho Indígena Nacional, uma importante plataforma dentro do Plano Nacional da Pesca Artesanal, que visa promover a pesca sustentável e os direitos dos pescadores indígenas.

A dedicação de Luena à defesa ambiental é inegável, uma vez que ela enxerga a pesca artesanal como uma atividade que respeita a natureza. “A pesca artesanal é uma atividade que respeita a natureza – os ventos, os mares, a lua. Eles nos dizem quando é hora de parar,” explica. Para ela, o reconhecimento da FAO é uma honra não apenas pessoal, mas também um reconhecimento da luta contínua de seu povo, essencial para a preservação do meio ambiente.

O Papel das Mulheres na Pesca Sustentável

A homenagem à Joana e Luena se insere dentro da iniciativa das 100 Mulheres Heroínas dos Sistemas Agroalimentares e do Desenvolvimento Rural, que visa destacar a atuação de mulheres em diversas etapas da produção e distribuição de alimentos. Dentro dos sistemas agroalimentares, as mulheres representam 41% da força de trabalho, enfrentando desafios únicos como condições de trabalho precárias e limitações de acesso a direitos.

A FAO argumenta que expandir os direitos e as oportunidades econômicas para as mulheres é essencial para alcançar segurança alimentar e desenvolvimento rural. No Brasil, tanto Joana quanto Luena participam ativamente do Fórum de Políticas Públicas de Autonomia Econômica, que visa atender às demandas das mulheres na pesca, aquicultura e mariscagem.

A escolha de Joana e Luena não só celebra suas realizações individuais, mas reflete o compromisso do Brasil em fortalecer e apoiar as mulheres agricultoras e pescadoras. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, enfatiza que essa visibilidade é crucial para garantir que as pescadoras possam participar das decisões que impactam suas vidas e seus trabalhos. Reconhecer Joana Mousinho e Luena Pataxó é, portanto, um passo importante em direção a um futuro mais inclusivo e sustentável na pesca artesanal.