Postura correta existe mesmo? Entenda a ciência por trás disso

Você já parou para pensar na relação entre postura e dor? Frases como “Sente direito” ou “Endireite as costas” são comuns, mas a compreensão sobre esse tema mudou ao longo dos anos. Durante muito tempo, acreditou-se que a postura era um dos principais responsáveis pelas dores na coluna e na região cervical.

Antigamente, as orientações eram claras: corrigir a posição ao sentar e prestar atenção ao alinhamento corporal. Era comum relacionar o uso excessivo do celular com o surgimento de dores, mas pesquisas recentes mostram que a verdade é muito mais complexa do que isso.

A antiga crença de que a postura ideal existia e que qualquer desvio levaria à dor não é mais sustentada por estudos atuais. A lógica que fazia sentido bastava para entender que o desalinhamento causava sobrecarga em certas estruturas, gerando sintomas. No entanto, essa conexão não é tão linear quanto se pensava. Indivíduos com posturas vistas como excelentes podem sentir dor, enquanto outros com posturas consideradas inadequadas vivenciam o dia a dia sem desconforto.

A complexidade da dor e a postura

O exemplo do celular ilustra bem essa mudança de perspectiva. É verdade que olhar para baixo durante horas aumenta a carga em algumas estruturas do pescoço. Contudo, estudos não revelam uma relação direta entre a posição da cabeça e o desenvolvimento de dor cervical. Se a postura fosse a única responsável, todos os usuários frequentes de celular apresentariam dor, o que não ocorre na prática.

O que se observa é que a dor é o resultado de uma combinação complexa de fatores. Isso inclui qualidade do sono, estresse, capacidade física, histórico de dor, tempo de exposição às cargas e até fatores emocionais e comportamentais. Portanto, a pergunta não deve ser sobre qual é a postura correta, mas sim: por quanto tempo você permanece na mesma postura?

A importância da movimentação

O corpo humano é feito para ser dinâmico. Fomos projetados para movimentar, caminhar e mudar de posição ao longo do dia. Ficar muito tempo na mesma postura, mesmo que considerada correta, pode tornar os tecidos mais sensíveis e provocar desconforto.

Essa situação se aplica tanto aos que passam horas sentados quanto àqueles que permanecem muito tempo em pé. Por isso, uma ideia forte que surge na atualidade é que “a melhor postura é a próxima postura”. Isso reflete a necessidade de mudar frequentemente de posição e se manter em movimento.

Recentemente, a adaptabilidade do corpo ganhou destaque nas descobertas científicas. Ao invés de buscar uma posição ideal, devemos focar em desenvolver um corpo que tolere variadas posições e demandas. Um corpo forte, ativo e que muda frequentemente de posição, tende a lidar melhor com os desafios do dia a dia.

Construindo um corpo em movimento

Práticas cotidianas como fazer pausas durante o trabalho, levantar a cada certo tempo, caminhar por alguns minutos e mudar de posição, são essenciais. A incorporação de uma rotina regular de exercícios físicos também é crucial. O foco deve ser a construção de capacidade funcional e não apenas a busca por um alinhamento meticuloso.

A ciência da dor evoluiu bastante, e hoje sabemos que sentir dor é uma experiência complexa. Diferentes aspectos como os físicos, emocionais e comportamentais interagem entre si. Por isso, reduzir a dor nas costas, no pescoço ou nos ombros apenas à má postura é um exagero.

O corpo humano é mais complexo e adaptável do que se imaginava. A postura importa, mas não da maneira como foi ensinado durante anos. Não existe uma postura perfeita que previna todas as dores ou proteja a coluna em todas as circunstâncias. O que se tem aprendido é que o corpo consegue lidar com uma grande variedade de posições, e o movimento é, muitas vezes, mais importante do que a busca pela perfeição.

Portanto, mais do que manter a coluna reta a todo momento, devemos investir em movimentos variados, força e capacidade de adaptação. Um corpo verdadeiramente saudável é aquele que consegue se mover livremente entre muitas posturas diversas, ao invés de ficar rígido em uma postura idealizada.

*Texto escrito pela fisioterapeuta Monica Schapiro – (Crefiro – 423396-F), especialista em reabilitação oncológica e membro Brazil Health